O que ele descreve nos corredores dos hospitais é praticamente o mesmo fenômeno que se repete há décadas em vários bancos, corretoras e escritórios de assessoria de investimentos. Só que a vítima, nesse caso, muitas vezes é o próprio médico.
A Anatomia da Venda da Ilusão
O artigo toca num ponto nevrálgico:
"O ser humano aceita mal a implacável decadência… O cenário é perfeito para vender soluções."
Muitas pessoas saudáveis estão ávidas para "comprar" jovialidade, beleza, virilidade e essa venda, frequente é feita, mesmo ilusória ou sem necessidade.
No mercado financeiro, também se vende, frequentemente, a ilusão do enriquecimento rápido, sem riscos, retornos acima do mercado, dicas de investimentos mirabolantes. O médico, tão cético e científico ao ler um paper, despe o jaleco e se torna "paciente leigo e vulnerável" diante de um gerente ou assessor mal intencionado ou conflitado. Ele quer acreditar que existe um "investimento milagroso" (o equivalente financeiro a algum soro da longevidade) que o fará se aposentar em 5 anos sem esforço.
E, assim como o "médico mercantilista" citado no texto, o "assessor mercantilista" sabe que aquele produto (um COE, uma carteira automatizada duvidosa, um fundo de taxas abusivas) não vai entregar o sonho prometido. Mas ele vende mesmo assim. Por quê? Porque sua receita, meta e bônus dependem disso.
O Excesso de Intervenção (Churning)
O autor também cita a "supermedicalização" e os "exames excedentes". Nas finanças, chamamos isso de Churning (girar a carteira).
Quantas vezes você, colega, já foi induzido a vender um bom ativo para comprar outro ofertado como melhor, ou algo "da moda" e nem faz ideia de quanto pagou em taxas e comissões nessa troca? Será que fazia sentido ou era apenas para gerar comissão para a instituição (e para o assessor)? É a versão do mercado financeiro para tratamentos e até cirurgias desnecessárias: o risco é só do paciente (investidor) e o lucro certo é só do sistema.
E qual é a saída?
O artigo termina com uma nota de desânimo sobre a formação ética dos novos médicos, o que, de fato será um grande desafio para as instituições, diretoria e corpo docente das faculdades de medicina que se espalham pelo Brasil.
No mercado financeiro também há alternativas.
O Médico do Bolso nasceu para tratar da saúde financeira dos médicos, pois é frequentemente mal conduzida e acaba negligenciada pelos colegas.
Com uma abordagem holística, sempre isenta, mesmo que eu tenha que ser o "médico chato" que diz: "Não, você não precisa dessa cirurgia (desse produto). Você precisa de mudança de hábito, estratégia, disciplina e planejamento de longo prazo.",
Conclusão
O ser humano sempre vai querer comprar o sonho. Seja a cura impossível, seja o dinheiro fácil. Cabe a nós, mantermos a ética e termos a coragem de não vender o que não entrega, mesmo que isso signifique faturar menos no curto prazo. Como bem citou o Dr. Srougi pai: "Gado a gente marca, tange, fere, engorda e mata. Mas com gente é diferente".
Eu complemento: Com o patrimônio construído ao longo de uma vida de dedicação à medicina e a cuidar do próximo, também tem que ser diferente.